“Em Campo Aberto”: convite para o lançamento

Todos os amigos do blog estão convidados. Será um prazer lhes receber na Livraria Argumento do Leblon no dia 14. Aquele abraço!

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Literatura: “Em Campo Aberto”

Caros amigos, nesta semana meu terceiro livro (o primeiro romance) começou a chegar às livrarias de todo o Brasil. Chama-se “Em Campo Aberto” e, assim como o anterior, foi publicado pela Editora Record. Assim que possível, o blog dará informações sobre a noite de lançamento, a se realizar aqui no Rio e para a qual, claro, todos os leitores deste modesto espaço estão, desde já, convidados.

Cinema: “Abutres”

    Que o cinema argentino está batendo um bolão, muita gente já sabe. A novidade, provavelmente, é que a cada novo filme os cineastas do nosso estimado país vizinho mostram que o cinema argentino tem capacidade de explorar variados estilos e temas. Não é um cinema de um assunto só, ou dois. Tem drama, claro, porque o drama não poderia faltar, estamos falando da Argentina, afinal de contas. Mas também há competência na produção de cinema de ação, de cinema de reflexão, de cinema de denúncia e, por supuesto, do drama. “Abutres”, dirigido por Pablo Trapero e estrelado pelo sempre excelente Ricardo Darín (aqui coadjuvado por uma Martina Gusman de tirar o chapéu e aplaudir de pé), tem tudo isso mesclado com sabedoria e sensibilidade.  Lançado nos cinemas em 2010 e agora disponível nas locadoras, “Abutres” conta a história de dois seres humanos à  beira do abismo, abraçados um ao outro com o desespero que só mesmo quem está prestes a despencar do precipício pode sentir. Ele interpreta Sosa, um advogado cujo ofício é tentar arrancar dinheiro das seguradoras representando vítimas (às vezes nem tão vítimas) de acidentes de trânsito. Ela é uma médica que trabalha no serviço de emergência, em ambulâncias e hospitais, numa Buenos Aires dark.  Encontram-se, apaixonam-se, tentam mudar de vida, lançam-se em campo aberto. O cinema aregentino está batendo um bolão – e sem firulas, sem dribles desnecessários, sem dancinhas. Arte intensa, que comove, desconcerta e encanta. Cinema de primeira, enfim.

Literatura: “Antologia Pan-Americana”

    Se você gosta de ler contos e se interessa pela produção literária do nosso continente, então aqui está uma sugestão de leitura imperdível: “Antologia Pan-Americana”, organizada por Stéphane Chao e publicada pela Record. Participam do livro autores de 30 nacionalidades, que escrevem em espanhol, português, holandês, francês e inglês. São 48 contos que – coisa rara em antologias desse tipo – conseguem estabelecer um padrão geral uniforme e elevado de qualidade. Destaco “Sozinhos no universo inteiro”, do salvadorenho Horacio Castellanos Moya, um conto com alta voltagem erótica; “O dezenove”, do mestre uruguaio Mario Benedetti; “No bar do Alziro”, do cracaço Marçal Aquino; e “Integração”, do norte-americano Shemarn Alexie, filho de pai e mãe índios spokane. A diversidade de visões de mundo e estilos literários é o ponto alto do livro, que dá ao leitor brasileiro acesso ao trabalho de autores que dificilmente (ou nunca) encontramos por aqui. Quantas vezes você já leu textos de um escritor de Curaçao, das Antilhas Francesas, de Belize ou da Guiana Inglesa?

Neil Young: “Le noise”

Os (poucos, mas fiéis e seletos) leitores do blog  já se acostumaram (?) a ler lá no alto aquilo que no jornalismo chamamos de “retranca”. É o recurso que se usa para anunciar o assunto que se vai abordar no texto a seguir. Por exemplo, “Futebol”, “Literatura”, “Cinema”, “Música”. Uma informação sucinta, mas abrangente, normalmente dedicada a grandes temas. Bom, este texto inaugura uma nova retranca aqui no blog, chamada “Neil Young”. Isso porque, concordando com Emmylou Harris, grande cantora norte-americana de country e folk, “existe a música e existe Neil Young”. Eu já pensava assim desde os meus 16 anos. Quem leu os posts anteriores sobre o homem aqui no blog sabe disso. Pois é assim: a cada novo trabalho, esse canadense genial, que completou 65 anos em novembro, dá provas de que a tese de Emmylou (que ela, claro, plagiou – ainda que com honestidade de sentimentos – deste que vos escreve) é absolutamente correta. Não há nada igual à música de Neil Young, não existe nada que sequer soe parecido. It is unique. O CD “Le noise”, lançado na reta final de 2010 e já disponível no Brasil, traz Neil Young tocando sozinho, ora guitarra, ora violão. Não tem banda, não tem backing vocals. Umas guitarras sujas, maravilhosas, como sempre. Uns violões melancólicos, bonitos de doer, como sempre. O vigor com que ele canta e toca é impressionante, mesmo para aqueles que estão acostumados à sua música. O sujeito não fica velho. Nunca ficará. Uma das músicas “Love and war” lembra, em alguns momentos, uma bela milonga. O que me fez imaginar Neil Young tocando em Uruguaiana, numa roda de churrasco com fogo de chão e chimarrão. Viagens. Aliás, estou fazendo uns cálculos. (Isso, como se sabe, depois de um certo momento na vida não é boa ideia. Mas vamos lá.) Faço 46 anos em abril. Comecei a ouvir Neil Young aos 16, num velho compacto com “Sugar Mountain” de um lado e “Heart of Gold” do outro. Ou seja, lá se vão 30 anos de fiel acompanhamento da carreira – algumas dezenas de CDs, fitas de vídeo, DVDs, biografias e um show delirante no Rock in Rio III, em 20 de  janeiro de 2001. Até aqui, portanto, 30 anos com a melhor trilha sonora que uma vida pode ter. Pelo menos, claro, na minha opinião. Porque para mim é assim, cada vez mais: existe a música e existe Neil Young. É dessa forma que sinto e penso, há muito tempo. E Emmylou também.

Futebol: breves palavras ao Presidente Paulo Odone

Parabéns, Presidente Paulo Odone. Sinto orgulho de tê-lo como mandatário do meu clube do coração. Difícil tratar com quem é desprovido de moral. Não dá para negociar com quem abriu mão da dignidade. Mesmo neste mundo duro em que vivemos hoje, há certos códigos que precisam ser respeitados, existem determinados limites que jamais podem ser ultrapassados. O Grêmio não tem Ronaldinho porque não fala a mesma língua dele e de sua família. E confirmar isso, Presidente Odone, foi a melhor parte de tudo. Como foi bom ver o senhor falar de coisas que eles desprezam ou, simplesmente, julgam não existir. Saudações tricolores. Dá-lhe, Grêmio!

Futebol: centroavantes

    Os homens da camisa 9. Isso já foi mais rígido, mais – digamos assim – sagrado. Hoje eles podem ser o camisa 11, 38 ou 99. Mas continuam sendo os caras encarregados de botar a bola pra dentro. Os matadores. Ou então as vítimas da vaia e do sarcasmo quando não conseguem fazer isso.

    É o caso de Washington, do Fluminense. Tem 10 gols no Brasileirão e está há 12 (!) sem marcar. Ontem, contra o Vasco, no Engenhão, perdeu um gol de forma inacreditável no finzinho do jogo. Washington já provou que é um centroavante competente. Talvez esteja lhe faltando autoconfiança. É muito provável que seja isso. Há uma hesitação no chute, um receio na hora de colocar o pé na bola. E quanto mais tenta e erra, mais a ansiedade aumenta. A ansidedade do centroavante que não consegue fazer a rede balançar. É brabo.

    Autoconfiança é o que não falta a Jonas, do Grêmio, 21 gols no campeonato. Tudo o que ele tenta dá certo (perdão pelo lugar-comum, não consegui evitar). Mas não é apenas isso. Resumir a boa fase de Jonas à autoconfiança seria injusto com o jogador. Jonas está se aprimorando não apenas como centroavante, mas como jogador de futebol. Sua evolução é rápida e evidente. Sai da área, prepara a jogada, serve os companheiros e, claro, estufa a rede, principalmente. Tem crédito com a torcida (e a cada gol o crédito aumenta, lógico), tem a confiança do técnico Renato e a estima dos companheiros. Precisa mais o quê?

    André Lima, um dos parceiros de Jonas no Grêmio, é outro exemplo dos benefícios que um bom ambiente de trabalho pode trazer. Criticado por torcedores de Botafogo e Fluminense, seus ex-clubes no Rio, já fez nove gols em 18 partidas neste campeonato. Era reserva de Borges, que se lesionou e só retorna aos gramados em 2011.  André  está feliz no Grêmio. Mas é felicidade de centroavante: uma felicidade de poucos sorrisos, de muitas pancadas sofridas no tornozelo e daquele grito incontido quando corre de braços abertos para a torcida na geral.

    E o que dizer de Loco Abreu, do Botafogo? Carismático, dono de um futebol malandro e malicioso, ele é um dos grandes personagens deste Brasileirão. Aos 34 anos, o veterano Abreu é mais uma prova de que existe, no Uruguai, uma tradicional e eficiente escola que forma não apenas de jogadores de futebol, mas homens que se entregam ao jogo de tal forma que fica impossível não admirá-los.

Futebol: domingo tem Gre-Nal

    Os meus Gre-Nais inesquecíveis foram muitos. Foram todos. Claro que aquele, de 1975, com Zequinha fazendo três gols na vitória gremista por 3 x 1, no Beira-Rio, ocupa um lugar de honra na memória. Assim como aquele de 1977 – aquele! -, em que André Catimba fez um golaço, pé trocado, bola no ângulo, e depois se estatelou de barriga no chão porque não conseguiu concluir a cambalhota. Aquele gol de André, depois de uma bola magistral enfiada por Tadeu Ricci, interrompeu uma série de oito campeonatos gaúchos seguidos do nosso arquirrival. Eu tinha 12 anos e aquela partida, aquele Gre-Nal, me fez entender, de uma maneira até então desconhecida, como o futebol não é uma questão de vida ou morte; é muito mais do que isso. (Créditos da frase para o grande Bill Shankly,  thanks, Bill.) E teve também, naquele mesmo maravilhoso ano de 1977, o Gre-Nal do gol mais rápido da história: Iúra, aos 14 segundos. Pois é. E então agora aqui estou, já passado dos 45 (não minutos de jogo, mas de idade)  aguardando com ansiedade o Gre-Nal de domingo, o primeiro Gre-Nal de Renato Portaluppi como técnico do Grêmio. O Gre-Nal que terá de ser de Douglas e de Jonas, mas também de Victor e André Lima e Gabriel e todos os outros. O Gre-Nal de Celso Roth na casamata inimiga (ainda bem que é a casamata do lado de lá) comandando D’Alessandro, Tinga, que talvez não jogue, lesionado… É, domingo tem Gre-Nal, no Olímpico, nossa casa querida. Zequinha, André, Iúra, Renato, Douglas, Jonas. E do lado de lá… Bom, do lado de lá está o lado de lá. Apenas isso. Tudo isso. São 101 anos de Gre-Nal. Mas parece muito mais. Parece que começou com o nascimento do mundo, do universo, e que não vai terminar jamais. Eternidade. Mas isso não importa, na verdade, porque os dois – é isto o que se espera – vão jogar como se não houvesse amanhã, para honrar as tradições do clássico. Porque se sabe que só existe amanhã para quem ganha o Gre-Nal. Pelo menos um amanhã que valha a pena ser vivido.

Futebol: os técnicos, esses personagens

    Para mim, eles são heróis. Não todos, claro. Alguns são mesmo vilões. Mas os técnicos, em geral, guardam aquelas características presentes em personagens que a literatura, o cinema, a música e outras formas de arte criaram para representar o ideal do ser solitário, injustiçado, frequentemente amargo, fatalista, responsável por conduzir até o porto seguro (seja lá o que isso signifique) o seu grupo de comandados. Seus jogadores. Seu time. A seguir, alguns rápidos comentários sobre fatos recentes envolvendo esses caras que, digam os marreteiros o que disserem, por vezes deixam no chinelo os mais míticos cowboys, os mais célebres soldados e os tiras mais durões dos livros e dos filmes.

Renato Portaluppi: está realizando o tão acalentado sonho de treinar o time do coração, e vai conduzindo-o numa jornada que tem deixado eufóricos todos os gremistas, incluindo este que vos escreve. Renato é um técnico em rápida e consistente evolução. Sempre foi um grande personagem na época de jogador e agora está conquistando essa condição também como treinador. No Grêmio, do porteiro da arquibancada inferior ao presidente do clube, todos são seus fãs. Todos. Inclusive aqueles que dizem que não são.

Silas: apesar de ter sido jogador (com participação em duas copas), parece que ainda não pegou o traquejo do vestiário. Tem sérios problemas de comunicação e, em decorrência disso, de autoridade com os jogadores. Sabe montar um time, sabe organizá-lo em campo, mas ainda não aprendeu a se entender com os boleiros (me refiro aos não evangélicos) e ser um comandante.

Dorival Júnior: vai comprovar no Atlético-MG que é um treinador sério, competente e vencedor. Em seu primeiro jogo no comando do time, deu muito azar: pegou o Grêmio embalado, em franca ascensão. Mas, em seguida, empatou e venceu. Quatro pontos em dois jogos, e o Galo levantando a crista. Vai cantar novamente, em breve.

Vanderlei Luxemburgo: ele e o Flamengo vivem situações semelhantes, de crise. Luxemburgo, como indivíduo, claro – um profissional numa encruzilhada que pode lhe conduzir de volta ao panteão dos campeões ou ao terrível breu da decadência. O Flamengo, um clube pemanentemente no olho de um furacão, enfrenta neste 2010 ventos ainda mais furiosos do que o normal. Luxemburgo e o Flamengo nunca estiveram tão – essecialmente, espiritualmente – próximos.

Felipão: é sempre assim com ele, sempre assim… No início, dificuldades, conflitos, derrotas. Então, depois de algum tempo, ninguém segura mais o time dele.

Carpegiani: andou dizendo que ética no futebol é hipocrisia. Não é. É coisa para herói, condição para a qual ele talvez não tenha sido talhado.

Cinema: “Antes que o mundo acabe”

    É um filme belíssimo, sobre ritos de passagem, amizade, amor, resgate de relacionamentos. Uma produção da prolífica e referencial Casa de Cinema de Porto Alegre, “Antes que o mundo acabe” marca a estreia de Ana Luiza Azevedo na direção de longas. Jorge Furtado é um dos roteiristas. A história se passa numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Daniel (Pedro Tergolina) tem 15 anos e está num daqueles momentos que só se vive quando se tem 15 anos: o pai, que desapareceu há exatos 15 anos (ou seja, quando Daniel nasceu), ressurge, através de cartas enviadas da Tailândia – lindas cartas, aliás; a namorada está indecisa quanto ao relacionamento deles e, o que é pior, fica dividida entre Daniel e seu melhor amigo, Lucas, que, por sua vez, é acusado de roubo na escola. É um filme simples, emocionante, de uma fluência magistral e marcado por grandes desempenhos dos atores (das crianças aos veteranos). Não há quem não se veja representado na tela, de uma ou outra forma, em um ou outro momento. Para quem morava no Rio Grande do Sul quando tinha 15 anos, como se passou com este que vos escreve, aí o que acontece é que fica difícil, muito difícil, sair do cinema antes que suma da tela o último crédito e o pessoal da limpeza comece a olhar atravessado. E então sai-se à rua achando que o mundo, de repente, ficou muito melhor. E que o que passou, ora bolas, é eterno.